"Maic Literário: Ficções Cotidianas".

31/12/2018

Aqui, você vai encontrar uma poesia, um  poema ou um Conto ficcional. 


A tarefa

Com o puxar da coberta, Jorge percebeu que era hora de acordar (estudava no turno da manhã).

Com o corpo pesado, cabeça perturbada e, se pudesse, continuaria a dormir, atendeu ao pedido de sua mãe, quando ela ordenou:

- Acorde menino, senão vai chegar atrasado!

Foi com gestos lentos que se descobriu de tudo, caminhou até a cômoda, apanhou o seu uniforme (corriqueiro da instituição de ensino). 

Se vestiu e andou até a cozinha.

Rente a mesa, uma chaleira.

O liquido no interior dela, frio.

Sua mãe pregava que se fosse esquentar a bebida, poderia faltar gás para o preparo do almoço.

Um pão do dia anterior. Uma, ou, duas passadas de manteiga no meio dele, seria suficiente, segundo o seu pai, para aguentar até a hora da merenda na escola. "Quando eu tinha a sua idade, nem isso tinha em casa", quase todos os dias, Jorge ouvia a lamentação do seu genitor.

Entre sentir frio no braço, vontade de comer mais um pedaço de pão, ou, uma bolacha recheada, se houvesse?, testemunhar as teias de aranhas pelo teto de madeira da cozinha, o piso de vermelhão, cheio de buracos (parecendo um campo minado) e as tabuas das paredes, cheia de peças, já, podres, Jorge apanhou a sua mochila, por de cima do fogão à lenha e depois de deixar a porta que dava para o quintal, disse:

- Tchau mãe?!

- Tchau filho...

Cerca de duzentos metros da casa, seguindo um carreiro de capim alto derredor, próximo a uma cerca de madeira pintada de branco, esperaria a van escolar, que o deixaria no colégio Padre Chagas.

Não deu cinco minutos, percebeu quando o automóvel apareceu depois da curva e deixando um pó alto na estrada, estaria pronta para que ele embarcasse nela.

Foi o veiculo, com cuidado, estacionar, como de todo os outros dia da semana, Jorge tirou a sua mochila das costas, levou para frente da barriga e, rapidinho, como ajuda de uma outra criança que abriu a porta de ferro do carro, se acomodou em um dos bancos almofadados do transporte.

Dali, até a cidade, como era legal: sentiria um friozinho no estomago, quando passassem por de cima da ponte de madeira, dois quilômetros adiante; ia conversando com seus colegas, passagem bobas do fim de semana; por entre as outras fazendas, enxergaria: cavalos, plantações, pinus de doze metros de altura que sumiam para o céu...

No asfalto, era: os sinaleiros, os prédios erguidos de concreto, mercados, lojas, a catedral central...

Fim da locomoção, foi a corrida até a sala de aula, se aprumar em sua cadeira e aguardar o professor, que, sempre esperava que todos os alunos se acomodassem primeiro rente as carteiras, depois ele chegaria trabalhar.

Entre sair da van escolar, debaixo de algazarras, empurrões, gritarias, e esperar a fila até a marcha para a sala de aula, foi o professor Henrique de geografia que mais uma semana letiva, estava começando a partir desse momento:

- Bom dia crianças...

- Bom dia professorrrrr..... - todos num coral só, numa harmonia fora de tom, responderam.

Depois de fazer a breve chamada deles, contar uma piadas sem graça, e dar uma ajeitada no seu jaleco de cor branco, o professor orientou:

- Tragam a lição de casa, classificação das nuvens, estratiformes, fibrosas, cumuliformes, para que eu possa dar uma conferida...

Aquilo para Jorge, como de todas as outras vezes, desde de quando chegou na sexta serie, foi mesma coisa que um aviso de um parente morto na família. De tanta surpresa.

Única coisa que se lembrava, foi que na sexta-feira, depois que saiu da van escolar, encontrou o tio Paulo próximo a cerca branca da chácara, caído ao chão de bêbado, e o ajudou a levá-lo para casa. Depois, lembrou que a mãe pediu para que ele levasse a Capelinha da paróquia São Sebastião, na casa da tia Lucia, onde, já estava com um dia de atraso. Nesse itinerário, na volta, encontrou como o Serginho e o Pedro, foram juntos pelas margens da estrada, juntar pinhão para venderem para o Sr. Izidoro (única Bodega da região agrária que moravam, faziam uns vinte anos).

"Lição de casa de geografia? Da onde foi que o professor tirou isso?", quis entender o menino.

- Jorge!

- Sim professor...

- Seu caderno, só falta você...

- Eu não fiz a lição professor... - rosto baixo da criança.

Alguns dos seus coleguinhas caçoaram dele, de uma forma tímida.

Com a sua face inchada e seus olhos azuis de raios penetrantes, o professor Henrique só se ateu:

- Se lembre Jorge, a vida não é só vídeo game. Se as tarefas escolares, não houvesse "aprendizado" nelas, elas não seriam solicitadas. 

Autor: Denis Santos (Guarapuava PR). 




Emergência


Enquanto um cantor, num programa de palco, tentava dar o melhor de sí, o doutor Serafim e a enfermeira Jocasta, caiam nas gargalhadas.
O plantão era no PA do "Hospital São Francisco" - cidade de Pontápolis (quarenta e seis quilômetros, afastada de Guarapuava) .
Por entre as cadeiras espalhadas pelo pátio do centro médico, os familiares dos que já estavam sendo atendidos, por pediatras, dermatologistas, ortopedistas... também davam gargalhadas.
Todos tiraram as faces voltadas para a tela eletrônica, quando ouviram ao longe a sirene de uma ambulância que - turbinada - parecia chegar na instituição médica.
Foram em poucas frações de movimentos: estacionaram o automóvel de modo cuidadoso poucos metros da porta de vidro; retiraram o paciente; correram com ele para um dos interiores das alas e, o doutor Serafim, já estava em cima do doente, prestar sua especialidade.
- O que aconteceu?
Uma das paramédicas (vestida com o seu uniforme habitual, luva cirúrgicas em punhos e de olhos azuis), respondeu:
- Disseram que estava empinando uma moto, doutor, o encontramos no meio da rua!
Se tratava de um adolescente com o cabelo cortado com a máquina número zero ao lado. Estava com a perna esquerda toda esfolada, um dos pés torcido, o braço direito, nitidamente, quebrado, e, um talho na cabeça, com um sangue um tanto escuro, deslizava para parte do rosto.
Face de estranheza do Dr. Serafim. Espiava o jeito do sujeito que o preparavam para transportá-lo para o leito, que só poderia não estava gritando de dor, porque talvez isso não valesse a pena. Mas "motivo" ele tinha.
O clinico geral fez o melhor que pode: limpou com cuidado os aranhados em sua perna; parte do corpo chegou o enfaixar e, em seguida, depois que chegasse o raio x do braço dele, o engessaria.
Passando-se alguns momentos, em silêncio, tecnicamente, tomando a maior das precauções, enxergando o que conseguia depois das lentes dos seus óculos de tartaruga, o médico juntava o talho aberto no crânio do paciente, com uma linha escura, sentado numa banqueta de plástico, próximo à face do enfermo.
De repente ouviu:
"Há, há, há... há, há, há... há, há, há...".
Achou estranho aquele eco, naquela hora da madrugada, vindo de algum lugar da rua.
"Tummm... blammm..., tlummm...".
Parou por um segundo de colar parte do tecido humano, um, no outro, quando imaginou que a festa, sem data antecipada, marcada, estava acontecendo era dentro da instituição pública.
Foi nesse momento que a enfermeira Jocasta entrou no cômodo. Deixou parte da porta aberta.
Nisso, Serafim enxergou que do outro lado da madeira, os parentes, amigos e conhecidos dos que estavam sendo atendidos, davam risadas inconscientemente (em vozes altas, entrecortadas entre elas). Vezes, os ocupantes dos acentos almofadados, batiam as mãos (tamanho impacto da nostalgia).
- Mas o que está acontecendo, enfermeira?
- Estão se divertindo com aquele programa de palco, doutor!
Jocasta entrou e já ia sair, parou na porta e explicou:
- Chegou outra emergência, doutor. Um menino mordido por uma aranha marrom. Já volto ajudar o senhor... - foi embora.
Serafim abaixou a cabeça. Permaneceu em silêncio. Voltou a se concentrar na desgraça em parte do crânio do menino que, provavelmente, estava se exibindo em pública e por pouco não perdeu a vida.
Percebeu que o paciente, além de dor, também estaria sentindo frio. No corpo, cobrindo partes da pele carnal, somente uma calça jeans de cor azul.
"Há, há, há... há, há, há... há, há, há...".
Antemão havia verificado a perna do garoto com escoriações permanentes, o braço quebrado dele, e o rasgo na cabeça, agora, mais clinicamente, percebeu que ele também tinha hematomas próximo a costa, em varias partes da barriga e o seu pé direito, ele não deixaria o homem ir embora, sem antes providenciar também um raio x dele. O lugar, imaginou, também poderia estar quebrado.
"Tummm... blammm..., tlummm...".
Descontração, alegrias e divertimento do povo (os que não estavam sentindo dor naquele momento).
Sem mais pensar Dr. Serafim foi terminando sua atividade.
Não chegou a trocar palavra com o paciente que ele dera atendimento.
No fundo, achou que maior parte do tempo, o ferido, passara no leito, mais "dormindo", do que acordado. Voltaria depois de uns dez minutos, pronto para engessar o seu braço.
Tirando suas luvas cirúrgicas e as despejando num cesto de lixo de alumínio, próximo a porta, sem mesmo olhar para trás, o médico deixou o recinto.
Cabisbaixo, caminhando, se sentia cansado.
Até quando teria que trabalhar virando turnos de madrugadas? Como seria o resto do plantão, até o fim da noite? Quando alguns seres humanos criariam juízo em dar mais valor a vida?
Sem mais o que lamentar, voltou a procurar o balcão da recepção do hospital.
Perto dele, não achou conivente ficar no meio da multidão que se divertia, em meio ao sofrimento de um acidentado ao lado, que para ele, a vida não estava sendo nada fácil.
Pensou apenas em avisar a enfermeira Jocasta que, caso precisassem dele, o encontrariam, pronto para qualquer emergência, no refeitório (tomando em café), mais não a enxergou no lugar.
Em silêncio, sumiu em meio ao corredor largo e alto do hospital, tentar esquecer a dor da vida enfrentada, no liquido preto.


Autor: Denis Santos (Guarapuava PR).


A reportagem

O Sr. Lopes veio do terreiro, carregando um balde com água que acabara de tirar de um poço artesiano, alguns metros da sua moradia. 
 Sempre quando a bomba d'água queimava, ele com a família, ficavam nesse exercício até o final do mês. Momento que ele receberia seu pagamento e fossem para a cidade (dezoito quilômetros da chácara que moravam) e pudessem comprar a peça hidráulica "nova" (de volta). 
  Eram seis da manhã. 
  O homem vestia apenas uma ceroula de cor marrom clara, por de cima da cueca - esses últimos dias, na chácara "Silvo da Mata" (outono) o frio estava rigoroso, mas Sr. Lopes insistia para os parentes que não era um "florzinha". Por isso dormia quase pelado. 
  Sua mulher, D. Leocádia, roncava na cama ao lado da cozinha. Tinham uma filha de sete anos. Daqui um pouco teriam que acordá-la. A menina estudava de manhã. Tinham também um filho de vinte anos, mas esse já era casado e morava na cidade. 
  Daqui um pouquinho, Sr. Lopes raciocinava, vestiria sua calça, camisa e suas botinas habituais, para ir trabalhar. Com a sua Kombi, na garagem, sua atividade era levar os alunos das moradias adjacentes, para a escola (a profissão de motorista, prestando serviço para a prefeitura municipal). Assim como sua filha, já partiam cedo, juntos, para seus compromissos rotineiros (como, de todos os outros dias da semana).     Depois que colocou parte da água do balde em cima do fogão à lenha (que ficava ao lado do fogão à gás), procurou um copo plástico no armário e com ele, alocou quatro xícara do liquido, na chaleira. Ascendeu uma das bocas do eletrônico e, a intenção, era que depois que a água desce uma esquentadinha, pudesse preparar com ela, o café. Ele e sua filha, não saíssem em jejum de casa. 
  Ao que foi atrás da porta e enxergou lá (como corriqueiro) sua calça e camisa pendurada em um dos pregos, já apanhou os tecidos e as grudou na carcaça humana. 
  Depois, como de costume, foi com um chapéu de palha (claro), que cobriu o crânio. 
  Se virou Sr. Lopes. Foi para janela que dava para o terreiro e próximo a um balaio (caixote largo e alto que guardava lenhas) o motorista se ajoelhou. 
  Também era costume, perto do balaio, antes de arquitetar o seu dia: o trabalho, os problemas, as alegrias, as decepções... da vida, se ajoelhar por alguns instantes e pedir para que Nossa Senhora Aparecida, cuidasse dele e de sua família. 
  Feito a oração, sentou-se em cima da caixa, que muito dos parentes a confundiam-na com uma cadeira, sofá, criado mudo... 
  A janela estava aberta e, como de todas as outras manhãs, enxergou: um trator, enferrujado e velho, que há muito tempo (por falta de dinheiro) precisava de reparos. Todas as madeiras da cerca de sua chácara que faltavam pinturas nelas e o esticar dos arames farpados. Os excrementos dos animais, que, próximo a porta da habitação deles, precisava mais rápidos serem tirados dali (por mais que a sua mulher se esforçasse, às vezes, não venciam vencer a quantidade deles). 
  Foi quando teve a ideia de ligar a sua televisão. 
  Saiu de seus pensamentos e caminhou para a sala. Sabia que dava pelo menos para ligar o aparelho, antes que a água da chaleira estive em ponto, onde desce para com ela, preparar o café para ele, sua filha e esposa. 
  Não foi com muito esforço que Sr. Lopes girou um dos botões do televisor e já enxergou no interior dela, um homem (vestido de terno e gravata) e uma mulher ao lado dele (vestia ela uma blusa de lã, gola alta. Tinha cabelo baixo e, aparentemente, estava perfumada e que gastou um tempo para alguém a maquiá-la). 
  Discorriam a seguinte informação: 
 "Agora é real! Tomem cuidado. Vigaristas querem tomar o seu dinheiro!". 
  O apresentador intimava o telespectador, como quem não estivesse lhe dando audiência, naquele exato momento, ele iria ter um ataque cardíaco. 
  A apresentadora tomou a vez: 
"Quando você sair de casa, tenha cuidado! É preocupante os dados da OMS". 
  A mulher soltava as consoantes e vogais, com o mesmo tom de introspecção alarmante do seu colega ao lado. Que para o telespectador, a filmagem que eles iriam colocar no ar, fosse o último cadáver, fotografado ou filmado no planeta, que eles fossem expor para a multidão. 
  Foi à vez do homem: 
"Agora, sim! Tem gente que vai poder usar os benefícios do FGTS, para a construção da moradia. É agora! Tudo aqui explicadinho para vocês na nossa reportagem!". 
  Voltou à mulher: 
 "Dez milhões com gastos na Saúde Pública na prefeitura do município!". 
  O homem de terno e gravata, na caixa eletrônica, focava o telespectador, de uma maneira tão elétrica, que se o ser humano não tomasse uma atitude, "rápida", para ele, estaria encenando um papel de idiota, na grande capital. 
  Soltou em seguida informação: 
"Ambulâncias, aparelhos e novos médicos contratados... E o hospital? Já estava fechado fazia um ano! É aqui, tudo aqui, agora! Vai começar o seu Jornal da Jornada. A reportagem você não pode perder! Acompanhem, já!". 
  Sr. Lopes já estava sendo hipnotizado pelo interesse naquela matéria, fosse, lembrar da água no fogão.     Foi aos passos rápidos que praticamente correu para a cozinha. 
  Nela, reparou que próximo ao fogão, D. Leocádia levava a água quente, para cima da cambucá, com o pó de café, onde uma fumaça roliça, já subia para a atmosfera.
- Bom dia, velho?
- Bom dia! 
  De volta Sr. Lopes sentou-se no balaio e, pela janela, voltou a inspecionar o terreiro. 
  No mesmo lugar, enxergou, com sua face de dormente: seu trator precisando de reparos por falta de dinheiro (pensava que só poderia voltar a trabalhar com ele, na colheita, quando se aposentasse); a madeira da cerca, muita delas podres, que ele, só para o final do ano, teria como fazer um "empréstimo", para deixa-las, de volta, com jeito de "cerca"; e as galinhas, patos, gatos, cachorros... que, dos excrementos deles, de tão forte o aroma, ele já estava pensando que da catinga, não poderia chegar a infeccionar o intestino da sua filha, que tinha o habito de sempre estar brincando pelo lugar e, numa dessas, ter que levar a pequena as pressas, para algum hospital... 
  Em final, fora o silêncio que percebeu debaixo do teto de sua moradia, o que daria na vida Sr. Lopes, para quem trabalhasse na televisão, para aquele povo que dava audiência para a emissora, também soubesse de um problema seu.

Autor: Denis Santos (Guarapuava PR).



A sandália

Fazia uns quarenta minutos que Ester olhava os carros que se encontravam toda hora por de frente a loja que trabalhava - Rua: Saldanha Marinho.

Na vitrine e pelos expositores, diversas vestimentas: calçados, sandálias, camisas, blusas, roupas intimas...

Se aproximava os dias dos pais. Como seria importante para ela, que um consumidor chegasse e levasse pelo menos uns mil reais em dinheiro (em roupas).

No fundo a culpa não era dela. Sabia que em muitas outras capitais espalhadas pelo Brasil, estavam investindo "pesado' em publicidades. Se o seu patrão não tinha tempo para parar e começar a pensar nessas coisas, não era ela, quem devia de ficar preocupada - falência - era problema dele. Ainda, fora, os que adentravam no estabelecimento, e ter que ficar insistindo com eles, em comprar até aquilo que não havia ficado legal em seus corpos. "Uí", pensou desanimada a funcionária.

Foi de um salto percebeu que pela vitrine, uma mulher baixinha, óculos escuros e que já carregava uma sacola de comprar em mãos, pareceu que ia entrar na loja.

A um metro uma da outra:

- Boa tarde? Poço ajudar à senhora?

- Queria ver uma sandália!

Dali para frente, o momento da senhora com Ester foi agradável: a cliente provou varias calçados; fez breves desfiles com ele numa pequena passarela improvisada mais para o canto do pátio, debaixo de vários espelhos, e, no fim, chegou até a escolher dois pares de meias, segundo ela, presente para o seu neto.

Em seguida, caminharam as duas para próximo um balcão alto, largo e de cor branco marfim.

Ester foi para trás da maquina registradora, a senhora, ficou com um jeito estranho, espiando os movimentos da vendedora.

Mesmo certificando quanto custava tudo aquilo, ao tempo que estava lhe atendendo, Ester se ateu:

- Dinheiro ou cartão? Ficou tudo em quinhentos e vinte reais!

A senhora não perdeu tempo. Puxou a carteira do interior de sua bolsa de ombro, tirou dela seu cartão de credito, e, além de passar para a mulher que sentiu que era mais simpática que o normal, respondeu:

- Cartão!

Apanhando o plástico e o injetando no orifício da maquineta eletrônica, ainda perguntou:

- Credito ou debito?

Com a voz baixa e um olhar meio sem graça, a senhora respondeu:

- Credito minha filha, e em quatro vezes, faz favor.

Nisso, atendeu o pedido da cliente. Foi uma vez que digitou a opção do cartão e quantidade de vezes. A mulher a senha e: Nada! (da maquineta trabalhar). Foi à segunda tentativa. Nada.

- Desculpe perguntar isso, mas a senhora tem certeza que há credito, disponível?

Rosto vermelho e que não estava se sentindo confortável perante a função de "compradora".

- Sim! Meu marido sempre verifica isso antes, quando aviso ele, que venho para o Centro, fazer compras.

- Não se preocupe, vamos tentar mais uma vez.

Opção de compra. Senha da cliente e "Nada".

Mais clientes chegando na Loja. Ester estava trabalhando sozinha. Não foi a primeira vez que, nesses confrontos com suas vendas onde elas pareciam não estarem dando certo, que: as frenagem dos carros na rua; o barulhos dos transeuntes na calçada e; o movimento impaciente dos que estavam perdidos pela loja, a deixavam ainda mais tensa.

- Sinto muito. Mais realmente, pelo cartão de credito, não vai ter jeito. Tem alguma outra forma de pagamento? - voz alta e semblantes de quem estava em sua frente, uma vogal, ou, consoante errada, poderia leva-la para a guilhotina.

- Não! Só ando com o catão. Me desculpe. Peço desculpa para a senhora. Em fazer perder o seu tempo.

- Não tem problema. Esse é meu serviço. Não se preocupe - sorriso amável de Ester.

Ficou espiando a senhora que sem graça, cabisbaixa e entristecida por não poder levar a sandália para ela e as meias para seu neto, de presente, sumiu calçada afora.

Foi quando o silêncio voltou.

Terminou de atender os outros perdidos por entre as roupas pelos expositores e, em seguida, como costumeiro, voltou a inspecionar o mundo para depois da vitrine da loja.

Aí, percebeu que um homem vestido de terno e gravata, alto e magro, rosto focado, provavelmente, no que tinha nas ideias que veio trazendo da civilização, adentrou no comércio.

- Tudo bem, Ester? - se tratava do patrão.

- Tudo! Só tive dó de uma senhora que a compra dela não deu certo...

Parou os passos o homem e mostrou que estava interessado na história.

- Ficamos um tempo para escolher uma sandália para ela e depois, um par de meia para o neto, e, na hora que foi pagar...

Mais interesse do capitalista:

- O que aconteceu?

Ester sentindo que na pergunta tinha um quê de investigação, respondeu:

- Não tinha saldo o cartão de credito dela...

Levando as duas mãos para o coro cabeludo numa fisionomia estranha (a funcionaria achou suspeito aquilo) o homem explicou:

- As maquinetas não estão funcionando por que eu não paguei a mensalidade delas ainda esse mês... Esqueci de te avisar ontem...

Autor: Denis Santos (Guarapuava PR).