"Tem medo? Um trecho sobrenatural"

31/12/2018

Leia um capítulo do livro de ficção de Denis Santos.

Livro: Assombrado

Autor: Denis Santos (novela/policial de ficção).


1

Depois de uma porta gigante de vidro, atrás de uma escrivaninha, o sargento Eduardo, atento e concentrado, digitava alguma coisa num computador de marca Semp Toshiba.
No espaço pequeno do cômodo, uma banqueta de quatro lugares de estofado de espuma de cor verde.
Ocupando o móvel, havia: uma mulher de rosto inchado e que usava óculos de lentes fundo de panela. Ao lado dela, um homem aparentemente de trinta anos, que usava chapéu de palha à cabeça. Ora, olhando para o alto, ora, verificando os gestos do sargento Eduardo, um adolescente, quinze anos, sentado ao lado do homem de chapéu de palha à cabeça, estava ansioso para adivinhar o que ia acontecer com a sua vida, naquela hora da tarde. E no último acento, próximo a uma porta do órgão público que ia para a cozinha, um ser humano que vestia camisa social de cor branca, e tinha uma expressão de que estava inconformado com alguma coisa.
Em frente à autoridade policial (os quatro seres humanos), o sargento Eduardo perguntou, dirigindo a palavra ao homem de chapéu de palha na cabeça:
- Sr. Mario. Como é que foi a situação lá?
- Bom, sargento. O menino, depois que eu mandei ele sair para fora da sala de aula, porque só atrapalhava os outros colegas e não fazia a sua lição, e ir conversar com a orientadora educacional. Quando eu me virei, ele pegou uma cadeira, e jogou com tudo nas minhas costas. Com outros professores, ele também já fez isso.
- A cadeira pegou em que parte do corpo de senhor? - rosto frio e calculista do sargento Eduardo. O professor respondeu:
- Só de raspão sargento, no braço, se eu não me abaixasse. Bem na hora que a cadeira voou para o meu lado.
Em frente ao "Destacamento Policial Militar de Acerola do Oeste" carros das mais variadas marcas e modelos iam e vinham em direções opostas. Homens e mulheres caminhavam nas calçadas. Tentavam resolver algum problema em suas vidas, ou, tentavam achar algo para consumir pelos comércios do município. Crianças, de mãos dados com suas mães, se intertiam com qualquer pormenor bobo em via pública, caminhando em silêncio. Um gato de iris azuis, quase foi atropelado por um ciclista, quando tentava atravessar a rua.
Ao céu, tudo indicava, mais a noitinha caísse uma pancadinha de chuva.
Ao que digitou as palavras soltas pelo Sr. Mario, agora, dirigindo a palavra para o adolescente de nome Giliard, o sargento Eduardo perguntou:
- Foi isso que aconteceu Giliard?
Depois de uns vinte segundos de cabeça baixa, o menino respondeu:
- Sim! - a mulher que estava ao lado dele, de cabelos compridos, e óculos com lentes fundo de panela, deu a sua opinião, se intrometendo na acareação, que não era com ela:
- Esses últimos dias sargento, ele tava melhorando. Às vezes tava indo ajudar o pai, que trabalha de pedreiro - a mãe começou a chorar - E agora ele me apronta essa sem precisão.
O homem sentado mais no canto da banqueta, o de camisa social de cor branca, interrompeu:
- Não chore D. Margarida. A gente que trabalha no Conselho Tutelar, percebe que a sociedade esta cada vez pior. Essa molecada hoje em dia, não tem o que não apronte!
Nisso entrou um fardado no cômodo, vindo de fora da instituição Estadual. Sem se dar conta que o sargento Eduardo estava preparando a documentação de "Termo Circunstanciado de Ato Infracional" de uma "Lesão Corporal Leve"acontecido na "Escola Prof° Ernesto Vieira" o indivíduo magro e alto disse:
- Sargento! Tem um homem aqui que quer falar só com o senhor.
- Sabe o que é Moraes?
- Não quis falar sargento!
- Mande ele entrar, faz favor!
Um homem gordo, vestido inteiro com roupas sociais, bigode mais comprido que o normal e chapéu de feltro à cabeça, apareceu na frente da autoridade pública.
Sem perder tempo, Eduardo perguntou, depois de ficar de pé e o cumprimentar num gesto com a mão direita:
- No que posso ajudar o senhor?
- Boa tarde. Desculpe incomodar - todos olhavam para o caboclo como se ele fosse um alienígena - Eu sou agricultor, moro na Localidade de Pântano Novo. Eu precisava conversar com o senhor, sargento, em particular se pudesse. Estou com um problema lá na fazenda, na minha casa, e queria que o senhor me ajudasse!
Se não fosse a primeira vez que o sargento Eduardo estivesse visto o homem em sua frente; se não fosse a boa educação do cristão; e se não fosse à ocorrência de Lesão Corporal Leve de um dos professores da escola Estadual Prof° Ernesto Viana, já estarem com os ânimos todos acalmados, depois da baita confusão que houve no colégio, o sargento Eduardo pediria para o forasteiro vir outro hora, mas sem pensar muito, o policial gritou:
- Moraes! - dez segundos o rosto do soldado apareceu de volta no recinto.
- Sim sargento!
- Eu já abri o Word, a primeira pagina do Termo Circunstanciado de Ato Infracional. Vá anotando o que você sabe, depois eu venho terminar. O senhor - procurou o agricultor - Me acompanhe faz favor.
Os dois passando pela porta grande de vidro da arquitetura de alvenaria pintada de branco por fora, os dois homens, se dirigiram para a calçada.
Fazendo rosto de desconfiado, o sargento Eduardo foi logo perguntando:
- Em que posso ser útil na vida do senhor?
- Pois olhe sargento. Sei que o senhor vai achar meio estranho, mas o negócio é o seguinte. Isso que vou contar para o senhor não é mentira. Espero que o senhor acredite - o desconhecido viu quando o policial levou as duas para cima de seu cinturão - Todas as noites sargento. Sempre à noite, quando nós recolhemos, eu e minha família, para dormir, ouvimos gente dentro de casa.
- Já foi roubado alguma coisa? Tem suspeito de quem pode ser?
- Não sargento. O negocio é o seguinte - o senhor de aparentemente cinqüenta anos, tirou o chapéu de feltro de cor preto da cabeça e o segurou em punhos dum jeito que não estava se sentindo confortável perto da autoridade pública - Não é isso de ladrão... Eu acho que a casa tem mal agouro. Quando estamos dormindo, a televisão liga sozinha, as gavetas do guarda-louça se abrem, e gente anda pelos cômodos e tem barulhos nos moveis...
- Como é o nome do senhor?
- Gabriel.
- Pois olhe Sr. Gabriel. Não sei o senhor percebeu, mas hoje nós estávamos apurado de serviço, o dia esta corrido. Isso aí a polícia não pode resolver para o senhor. Roubo, furto, ou qualquer arrombamento, que o senhor tenha suspeito é com nós. Mas esse tipo de problema não é comigo.
O sargento Eduardo enxergou quando o homem começou a chorar. Em seguida ele perguntou:
- E quem nessa cidade pode me ajudar sargento? Depois desse diabo acordar a gente de madrugada, aí não aparece mais. O que posso fazer sargento? Minha família tá falando em vender tudo e nós ir embora. Mas os vizinhos contam que a casa foi assim, nunca ninguém para no lugar. Só porque morreu gente lá, há muito tempo atrás...
- O senhor não morra naquela casa na Localidade de Pântano Novo?
"Pântano Novo" foi o nome dado pelos moradores de Acerola do Oeste, por intermédio da informação correu pelos primeiros tropeiros que pararam pelo lugar, ou, para descansar, ou, para fazer comércio com os índios Caingangues. Na época, derredor do açude, tinha tanta árvore que, quando seus galhos não iam todos para dentro da água, maioria deles se entrelaçavam em si no alto, que dava a impressão de estarem perto de um jardim Botânico. E nunca ninguém passava pelo lugar, sem enxergar a superfície do pântano, como se fosse com um tapete felpudo e impressionista. Por causa disso, apelidaram o lugar de "Pântano Novo".
Respondeu Sr. Gabriel:
- Sim sargento. Por quê?
- Eu conheço o lugar. A maioria das mortes lá, fui eu quem as atendeu.
- Maseu sou católico sargento, não acredito nessas coisas - nisso o homem limpou as lágrimas das bochechas, com as costas da mão direita.
Sem saber como orientá-lo, muito menos sugerir algo para um dos moradores de Acerola do Oeste (uma solução inteligente), o sargento Eduardo aconselhou:
- Procure o padre Mateus na capela São Pedro. Ele vai resolver isso para o senhor. Eu garanto.
E sem apertar a mão do agricultor, o policial deu as costas para ele...

Continua em breve...