Todos os Contos dessa pagina são histórias de ficção, escritos por Denis Santos. 

Você que mora em Guarapuava participe: Escreveu um Conto ficcional, seja ele cômico, assustador, dramático ou testemunho espiritual (se você quiser), compartilhe na "Coluna: Maic Literário". "Gratuitamente".


Para participar não existe idade, se aluno de escola pública ou particular.
Seu texto poderá ficar exposto por uma semana, depois dará espaço para outros escritores.
É só entregá-lo no seguinte endereço:


Rua: José Podolan, n: 57 (próximo ao Corpo de Bombeiro no final da Av. Bandeirantes).
Bairro: Primavera. 
Somente no horário das 11:30hs às 13:00hs. De segunda à sexta-feira.


Parabéns pela iniciativa. 

A estante


D. Conceição estava animada nessa tarde, porque o seu filho Gustavo, iria aparecer um casa, depois de ter ficado quatro anos preso na penitenciaria estadual do município.

Com o espirito elevado a uma condição de alta estima, já havia passado um pano úmido nos pisos inteiro dos cômodos; tirado toda a teias de aranhas pelo alto do teto; lavado toda a louça do almoço e, depois de passar horas tirando pó dos moveis: guarda-roupa, guarda-louça, geladeira... percebeu que faltava apenas dar uma última ariada na estante da sala. Aí, já poderia ligar a televisão e esperar a surpresa que o seu filho lhe proporcionaria, a qualquer hora daquela tarde, dessa sexta-feira.

Seu marido, Sr. Nicolau trabalhava de taxista. Como não sabiam bem certo que hora o filho ia chegar, combinaram que assim que o menino aparecesse, ela lhe daria uma ligadinha.

A filha mais velha, que trabalhava de vendedora por uma loja pelo centro da cidade, também já estava certo que, a noite, apareceria com o marido para tirar saudade do irmão mais novo.

Ao que D. Conceição começou a tirar o pó da estante (com uma flanela amarela na mão direita e um óleo de peroba na mão esquerda) não foi ficar um minuto no exercício, veio-lhe à memoria que já havia dias que tinha que abrir uma das portinholas do móvel e aquele monte de cacarecos que estavam por dentro dele: papeis velhos; peças de televisão, folhinhas que já estavam prazo de validade vencidas... e, jogar tudo fora.

Aproveitou, na verdade, e já ia fazer aquilo, era naquela hora mesmo.

Abriu uma das portinhas menor da estante (do lado esquerdo) e já de primeira inspeção, no espaço de madeira, enxergou uma foto de seu filho Gustavo.

Apanhou o retrato (300x540) e ficou a investigar lentamente a imagem do seu filho caçula numa praia por algum canto do Brasil, que ela não fazia a menor ideia, o lugar.

Como para ela o filho era bonito. Não tinha entradas no couro cabeludo. Seus braços eram encorpados. Seu rosto era claro e sua face para debaixo do nariz, de magrinho, testemunhavam que o garoto não tinha a idade que tinha.

Para a mãe, o filho ainda era aquela criança que ela segurava no colo, e o fazia dormir, todas as noites, quando, por um barulho estranho na rua, ele acordava no meio da madrugada.

Com a foto do filho à mão, sorriu a mulher para sí mesmo, porque aqueles tempos de creches que ela o levava com aquela bolsa pequena nas costas (com o slogam do Bem 10), não iam voltar mais. Quando corria atrás dele na casa, brincando, para fazer cosquinhas, não iria voltar mais. Os banhos que dava nele, sempre com o sonho de que no futuro, ele se tornaria alguém na vida (teria uma profissão honesta), ela tinha absoluta certeza, que isso, hoje, sequer passava pelas ideias dele.

Saíram umas lagrimas e foram para as bochechas da mulher. "Por que é tão fácil no mundo, o filho da gente se envolver com quem não presta?". Revolta de D. Conceição. "Por que filho da gente, quer tudo, que a gente não pode dar? Que saco mesmo!". Ainda pensou entristecida a mulher.

Alocou a foto ao lado da televisão. Quando o filho chegasse ele iria encontrar a fotografia no lugar e ia perceber que a sua família se importava com ele, mesmo estando ele longe de casa, por falta de juízo pessoal.

Para D. Conceição, de agora em diante o filho iria ser diferente. Não ia andar mais com os colegas que não queria saber de estuda, trabalhar, respeitar os pais, não frequentar igreja... Agora, ia ser tudo "diferente".

Estava ainda animada com o futuro do filho. Os abraços e os beijos que daria nele, quando ele chegasse de volta ao lar. Faria uma comida diferente naquele dia. Lavaria sua roupa, a passaria, se fosse o caso. No fundo, queria ele fosse feliz de volta, e, esquecesse o mundo feio que foi a prisão.

Foi quando se surpreendeu com o barulho de um carro, em frente a casa, que pareceu estacionar.

Veio-lhe uma nostalgia boa na consciência, que só poderia ter sido o seu pequeno que havia chegado da penitenciaria estadual.

Correu para a porta.

Espiou que para depois do portão, encostada, estava uma viatura da polícia Civil.

"O que será isso?". Será que vieram trazer ele escoltado?", pensou D. Conceição.

Reparou quando desembarcou pelo lado do motorista, apenas um homem.

Imaginou que era um investigador. Ele era alto e magro.

Do outro lado do carro, desembarcou uma policial de cabelos ruivos. Era baixinha e estava com a arma no coldre do lado direito. Trazia uma prancheta na mão esquerda.

Somente a policial veio caminhando para o portão da moradia.

D. Conceição não perdeu tempo e já foi se certificar do que se tratava aquilo.

A um metro uma da outra, a servidora pública disse:

- Boa tarde?

- Boa! - jeito acanhado da mãe de Gustavo que tinha todos os cabelos grisalhos.

- A senhora é mãe do Gustavo?

- Sim!

- Ele esta por aí?

Face desconfiada de D. Conceição.

- Do que você esta falando? Ele é meu filho, mas ia chegar hoje. Semana passada eu estive com ele, e ele me disse que hoje lhe dariam liberdade.

- Pois é. Acontece que seu filho fugiu ontem da penitenciaria... Viemos ver se por acaso ele não havia aparecido por aqui. Quem sabe a senhora, pudesse entregar ele para nós.

Olhos lacrimejados de D. Conceição:

- Sinto muito. Mais ele não apareceu. Se vocês quiserem entrar na casa.

- Não. Só viermos fazer nosso serviço de avisar a senhora e dizer que se por acaso houver noticia dele, vocês podem entrar em contato com a delegacia.

Depois de breves trocas de figurinhas do transtorno que o filho estava dando para a sua própria vida; depois de lamentações de D. Conceição da vida errada que o filho havia escolhido no mundo e, breves comentários de uma chuva que talvez caísse mais para a noitinha, a policial se despediu da mulher.

Entrou na viatura e em poucos minutos, sumiram em meio os outros automóveis que iam e vinha em direções opostas naquela hora da tarde, no asfalto.

Caminhando, sem saber como articular em ter que dar a noticia para sua filha mais velha e seu marido, da falta de cabeça "mais uma vez" do filho, por ter fugido da penitenciária, D. Conceição voltou para sala da casa.

Foi para perto do retrato de Gustavo. Apanhou a foto de volta e sem mesmo procurar a face do ser humano que era a coisa mais preciosa do mundo para ela, pela raiva, voltou a jogar o filho para o interior do compartimento da estante.

Pelo menos por um bom tempo, de desgosto, ela pensava em nunca mais limpar de volta aquela estante.

Autor: Denis Santos (Guarapuava PR).




A costureira

Do portão, Simone enxergou que do outro lado da janela, D. Marta costurava. 
 Por causa disso que ela empurrou o portãozinho menor de ferro e foi entregar uma das calças de seu pai, para que a costureira fizesse a barra no tecido. 
 No que chegou na porta da sala da residência, depois de empurrá-la, percebeu que um dos filhos de D. Marta jogava vídeo game: quase deitado no sofá, concentração automática nos monstros que matava com um machado e, estava vestido apenas com um shorts de cor preto (mesmo aquela hora da manhã, não fazendo tanto calor).
- Oi Jingo! - apelido que D. Marta colocara no filho caçula. 
 Quando o garoto se virou, Simone levou um susto porque se tratava de Péricles. 
 Péricles era filho mais velho de D. Marta, onde,faziam dois anos, ele cumpria pena em um dos presídios espalhados pelo Paraná, que Simone não fazia menor ideia, qual cidade. 
 Péricles só se ateu a mostrar os dentes: rosto inchado, de quando Simone o via com os outros meninos pela rua; entradas mais nítidas no couro cabeludo e; um dos dentes da frente, estava faltando-lhe. 
 Como o ex-presidiário sabia que uma das freguesas de sua mãe, apareceu apenas trazer roupas, para que sua genitora não pudesse parar o seu trabalho na maquina manual, não deu importância para a invasão dela no cômodo. Continuou concentrado no jogo do vídeo game. Afinal, Simone não era a única que entrava daquela maneira em sua casa, quando D. Marta não os ia receber na portãozinho de ferro.
"Toc, toc, toc...".
- Entre! Abrindo o compartimento:
- Oi, D. Marta.- Oi menina - sorriso amável da costureira - Que bom ver você! Simone explicou:
- Confundi o Péricles com o Jingo.
- Pois é. Meu filho chegou quase por agora. Deram a liberdade para ele. Espero que nada de mais de ruim, lhe aconteça na vida... 
 Foram divagando episódios passados: quando o filho começou a se envolver com pessoas estranhas; quando chegava só de madrugada em casa; quando havia parado de respeitar D. Marta... 
 Entre conversar vai conversa vem, Simone deixou a vestimenta de seu pai para que a costureira a arrumasse. Explicou como seu S. Antunes queria a peça e, combinou com D. Marta que,no domingo, iriam juntas na missa. 
 Péricles percebeu quando Simone voltou a passar por ele, meio que apressada, e sumiu depois do portãozinho de ferro, provavelmente, de volta para sua moradia. 
 Entrando em sua residência Simone percebeu o silêncio que fazia na sala: seu pai estava trabalhando; seus dois irmãos estavam na escola e; sua mãe, talvez estivesse ido ao mercado da esquina (não era costume da dona de casa, as saídas que dava pelo bairro, onde dava satisfação de tudo para a filha. Os avisos breves era somente quando ela fosse para algum lugar, mais longe, e fosse demorar mais tempo). 
 Voltando para o mundo real, a intenção de Simone era ligar a televisão. Ia começar o programa da Ana Maria Braga e havia uma das receitas da apresentadora, que ela queria anotar os ingredientes. 
 Foi quando levou um tamanho de um susto. Ouviu:
"Bum, bum, bum...".
"Mais o que foi isso", pensou. 
 Foi rápida para a janela. 
 Depois do vidro transparente, enxergou que o Fiat Palio de cor branco, manobrou bruscamente a rua, patinando, cantando pneu, e acelerou sentido centro da cidade. 
No fundo, Simone quis voltar para casa da costureira. "O que havia acontecido lá?". 
 Infelizmente veio-lhe nas ideias que nunca havia divagado antes com D. Marta, mas Péricles, depois muitos assaltos, problemas com drogas e, metido em dois ou três homicídios de facções rivais pela cidade, todos comentavam que mesmo depois de ido para a prisão (pagar o que devia), mesmo assim, ele ia um pouco mais cedo para o cemitério. Se delator ou rusga antiga por vingança, ninguém sabia. 
 Nisso Simone se ateu apenas a ficar na janela e não se envolver naquilo que, talvez, fosse perca de tempo - mostrar comoção sentimental. 
 Da janela, ouvindo o choro de D. Marta, gente chegando na residência: vizinhos, parentes, curiosos... Também enxergou que um tempo depois,duas viaturas da PM, uma da polícia Civil e por fim,o carro do IML, estacionaram em frente a casa da costureira. 
 Saiu de seus pensamentos quando achou estranho, meio que chorando, cabisbaixa, acompanhada de Jingo, D. Marta veio caminhando pela calçada. 
 Parando em frente ao seu portão, Simone foi meio que apressada, saber se a costureira precisava de alguma ajuda (ela seria a primeira para a tarefa). 
 Chegando próximo uma da outra, D. Marta passou-lhe um embrulho:
- Vim devolver o serviço que eu tinha que fazer na barra da calça de seu pai. Mataram meu filho. Depois de arrumar a documentação da funerária, for o velório dele e ele for enterrado, não vou ficar mais nessa casa sozinha - choro da mulher - Não sei se esses bandidos não podem voltar e querer matar o meu pequeno também - limpou as lágrimas com o encosto da mão direita - Vou passar uns dias na casa da minha filha mais velha. E sem mais dizer palavras D. Marta e Simone se despediram. 
 De cabeça baixa Simone enxergou quando a costureira entrou no carro da filha mais velha (que não morava no bairro que eles residiam) e sumiram por debaixo das nuvens que trocavam de lugar a todo instante; os latidos dos cachorros que se perturbavam com qualquer movimento estranho na rua e; um bando de pássaros que voaram não muito longe dos telhados das moradias e que apenas pareciam preocupados em encontrar algo melhor pelas arvores, para pousarem. 
 Se Sr. Antunes, quando chegasse para o almoço, quisesse ir trabalhar com aquela calça no outro dia, Simone teria que procurar outra costureira pelo bairro, pelo menos, por mais um tempo.

Autor: Denis Santos (Guarapuava PR).



Chocolate

O escrivão Josias foi importunado em sua sala, com parte do corpo de um policial militar:
- Boa tarde?
- E aí companheiro, tudo bem? O que temos aí para começarmos o dia - perguntou Josias. Estava debaixo de uma blusa de lã cor verde marinho e óculos de lentes grossas com armação cor de ouro.
- Um furto num supermercado aqui do Centro. Na verdade, uma bandeja de Danone, praticado por um menor. O proprietário do estabelecimento quis prestar queixa, porque já é a segunda vez que isso acontece - o militar tinha rosto chupado, olhos pretos e uma mecha pequena de seu cabelo crespo, quase tampava a sua testa.
- Beleza. Só espere um pouco. Terminando de imprimir outros documentos que eu estava digitando, já chamo vocês. Na frente dos senhores não tem mais ninguém. Pode ser?
- Sim! Estamos no corredor.
- E o detido? - face investigativa de Josias.
- Lá na grade, perto da carceragem. O conselho tutelar não acompanhou, porque o pai dele veio junto, quando soube do fato.
- E a vitima?
- Esta aqui no corredor, esperando. Se chama D. Silmara. A hora que quiser falar com ela é só chamar.
- Ela é a dona do mercado?
- Sim! - respondeu o fardado de cabelos mais compridos que o normal.
- Certo. Só um minuto, já chamo todos vocês.
   Antes de se levantar, Josias lembrou-se que quando era criança (eram em nove irmãos. Ele deveria de ter dez anos), seu pai, mal ganhava dinheiro (salário) para alocar comida no guarda louça da casa. Muito menos para os filhos gastarem em doces, salgadinhos, refrigerantes...
   Lembrou-se Josias, que uma vez fora lhe dado um fragrante, tentando furtar uma barra de chocolate em uma das mercearias do bairro que moravam.
   Se não fosse o futuro escrivão prometer que nunca mais faria aquilo outra vez, o dono do comercio jamais o deixaria impune da situação. Mas mesmo assim, prometeu que, rápido, um dos seus funcionários iria conectar seus pais, e passaria todo ocorrido para eles.
   Lembrou que do episodio, não só sua família inteira ficou sabendo do lapso, quanto, ainda, quase todos os outros moradores da vila.
   "Que vergonha!".
   O tempo passou. O garoto estudou. Cresceu. Continuou a estudar.
   Prestou concurso público. Além de ganhar um salario razoavelmente "bom" trabalhando na atividade judiciaria da polícia Civil, já ia para vinte e poucos anos na profissão, e, no fundo, se sentia até um "herói" no outro lado da escrivaninha, naquela hora da tarde, perante seu oficio na responsabilidade dos documentos que produzia para serem encaminhados para o juiz distrital.
   No fundo, dava "Graças a Deus" por ter se arrependido do que acontecera na infância e ter escolhido outro caminho na vida.    "Ufá", concluiu.
   Saiu de seus pensamentos de repente, quando se levantou e procurou a porta do cômodo.
   Tinha que, primeiro: ouvir a vítima do incidente. Logo, o autor do crime. Na sequencia, os policiais envolvidos na ocorrência.
   Tudo, construindo as peças de formulação do Termo de Ato Infracional, para, em breve, a apreciação do juiz da comarca municipal.
   Como das outras vezes, deixando para trás: adultos e idosos, que estavam na DP, para a formulação de BOs; o barulho ensurdecedor de raspagem de cadeiras e vozes entrecortadas de outros funcionários da administração judiciaria, entre eles: o delegado, serventes, investigadores, estagiários, peritos criminais... chegou próximo a um menino que tinha sardas as bochechas. Estatura mediana.
   O garoto tinha cabelos lisos (meio que ruivo), um tanto queimados com uma tinta clara. Calçava um tênis de marca Nike e vestia uma calça de caqueteu cor verde. Sobre as costas e barriga, uma camiseta de cor branca. Onde na altura do peito, um desenho de uma praia por algum canto do mundo, que Josias não fazia ideia do lugar: América, Europa, Ásia...
   Ao lado do detido Josias estranhou um homem todo vestido de branco (pés a cabeça).
   O escrivão não era tão estupido, para perceber que se tratava de um médico qualquer da região.
- Boa tarde?
- Não tão boa. Como meu filho pôde aprontar uma dessas? Moramos num prédio pouca quadras da onde ele estuda. Ele sempre vai para casa, acompanhado dos colegas... Que coisa mais baixa para mim - olhos lacrimejados do sujeito de cabelos grisalhos. Ele era alto, magro e cabelos presos a um gel brilhoso (todo puxado para trás).
- Me desculpe... - face de Josias de incompreensão, ao mesmo tempo, meio que "já" entendendo o que estava 

acontecendo - Mas o senhor não está se referindo a uma situação de furto de uma bandeja de Danone num supermercado, hein?
- Sim! É meu filho. Ele me contou que os colegas dele, comentaram que ele não tinha "coragem" de fazer o que aprontou - desconcerto do médico.
   Tocado no ombro e virando-se, Josias deu de cara com um homem vestido de terno e gravata.
   Deduziu, só poderia um advogado que vinha prestar os seus serviços a favor do delito do adolescente.
   Depois de breves apertos de mãos, e pequenos diálogos, Josias pediu licença e explicou que primeiro ouviria a vitima da situação. Na sequencia, ele voltariam a se encontrar.
   Assim, deu as costas para os dois homens. Saindo numa marcha, um tanto que charmosa e, não de esnobe.
   Aos passos lentos, foi caminhando no corredor da DP.
   Nisso Josias lembrou de volta de quando era criança. Seu pai trabalhava (ganhava um salário apertado), mas ao menos sua mãe e seus irmãos tinham a alimentação básica no lar.
   Dinheiro para chocolates, salgadinhos, refrigerantes... não tinham.
   Porém, Josias (lembrava) nunca precisou estar antes numa delegacia, enxergando seu pai chorar de desgosto num canto qualquer do corredor, talvez, (pelo filho que nunca havia passado fome), mas que o tempo não o fez crescer em juízo.
   Sem mais o que pensar ou o que fazer, o escrivão só raciocinou que daqui a algumas horas acabaria o seu expediente e voltaria para os braços de sua família (como era sempre, de costume).
   "Por que o mundo estava mudando tanto?", filosofou. 

   Em seguida caminhou em silêncio para o restante da sua função.


Autor: Denis Santos (Guarapuava PR). 




Caminho da vida


    Se não fosse ele conhecer o automóvel que tinha parte da roda traseira por de cima do trilho do trem (embicado para o meio do mato) e, cerca de cinqüenta metros antes da estrada ferroviária, enxergar um portão de uma residência completamente detonado, o bodegueiro não teria parado o seu itinerário.

   "Monza de cor verde, só pode ser do Serafim. O que esse infeliz aprontou!", pensou.

    O comerciante num canto apropriado da rua (depois de puxar o freio de mão, deixou-o em ponto morto, sem desligá-lo), estacionou o carro que dirigia.

   Em seguida, abriu a porta dele. Colocou apenas o rosto para o outro lado e percebeu que dois policiais fardados: um alto e outro de estatura mediana. Um, conduzia Serafim para o camburão da viatura, e, o outro, provavelmente, já anotava os dados para o boletim de ocorrência do acidente.

   Por três da madrugada, foi a hora em que bodegueiro pensou em orientar o companheiro: "Serafim, você não tem que trabalhar amanhã? Chega de beber. Vá para casa. Já é tarde. Sua família deve estar preocupada com você. Não é porque é seu aniversario hoje, que você tem o direito de imaginar que o mundo vai acabar amanhã!".

   Nisso entrou no seu carro. Engatou a primeira marcha, a segunda e, se não estivesse tão cansado de servir seus fregueses a noite inteira em seu "Bar Tome Todas" até poderia chegar perto de um dos seus clientes e mostrar solidariedade para com ele. Afinal, eram vinte anos de amizade. Fosse com o homem, ou, com a família dele. Dos três filhos do Serafim, o primogênito, na época, houve até cogitação do bodegueiro ser o padrinho dele. Mas na ultima hora, um outro parente, tomou a vez do compromisso eterno.

   Depois de quase uma hora, ao que o bodegueiro ficou dez metros do portão de sua residência, percebeu que o seu telefone celular chamou.

   Rápido, depois de conhecer o numero de quem queria conversar com ele, apertou um dos botões do eletrônico e disse:

- Alô!- Alô! É você Serafim? O que aconteceu?

- Nada. Só ia te perguntar. Por acaso, você tem o numero de algum advogado?

- Não! Na verdade não estou mais no serviço, já estou em casa. Cheguei de lá agora, para dormir um pouco. Descansar, a noite foi brava.

- Há! Desculpe. Eu não queria incomodar.

- Aconteceu alguma coisa?

O dono do "Bar Tomar Todas" estacionou seu automóvel, poucos metros de sua residência. Antes de sair dele, ouviu um dos seus clientes explicar:

- Nada grave - deu uma risadinha sem graça para dentro - Não se preocupe - mais risadinhas estúpidas - Estou com um probleminha. Mas são coisas que acontecem no caminho da vida. Tchau.


Autor: Denis Santos (Guarapuava PR).




A confusão


 A filha estava lendo um livro de Machado de Assis: "Memorial de Aires". 
   Se falar que menina levou um susto é "mentira". O que aconteceu foi que ela achou esquisito, um barulho vindo de fora do apartamento, o que não era habitual dos outros moradores (condôminos).
   Já de pijama, fechou o livro, calçou os chinelos e foi aos passos rápidos, saber se sua mãe, também estava sendo importunada pelo barulho.
   Na sala, encontrou a sua genitora com parte do rosto, depois da porta, para o corredor.
- O que aconteceu mãe?
   Procurando a face da filha, a mulher disse:
- Acho que D. Octávia foi para algum lugar. Deixou a filha sozinha na casa, e a menina chamou uns amigos. Devem estar fazendo uma festa de arromba. Credo!
   Foi a mãe fechar a porta, ouviu:
"Toc, toc, toc...".
   Sem pensar muito abriu o compartimento:
- Chame a polícia!
- Por quê?
   Se tratava da viúva Selma, apartamento ao lado do deles, quem solicitava socorro.
   Agora, filha e mãe, com uma das mãos na altura dos seios, pareciam assombradas.
- Se não chamar a polícia, esses pestes não vão parar cedo com a bagunça. D. Octávia viajou, e aquela filha dela rebelde que não respeita ninguém, deve ter convidados uns sem vergonhas, e estão badernando a casa da mulher. Que sofreu tanto para comprar esse apartamento. Pense, são quase meia noite!
   Aos passos lentos e de cabeça baixa, a mãe caminhou para próximo a um criado mudo.
   Apanhou o telefone por de cima do móvel e discou o cento e noventa.
   Em silêncio, a filha voltou para o quarto, com quatorze anos, não tinha muito que opinar nessas intrigas dos mais velhos. E não era a primeira vez que ouvia que sua amiga Bruna, aprontava uma daquelas pelo início, ou, fim, das madrugadas.
   A filha pensou que se o pai não fosse professor da UniCentro, aquela hora da noite, ele já estaria em casa.
   Entre fechar a porta do quarto, voltar a buscar o livro, fazer umas breves leitura nele, ouviu; "Toc, toc, toc...".
- Filha!
   A menina de volta calçou os chinelos, e foi rápido descobrir o que sua mãe queria.
   Ao que enxergou que a mulher estava um pouco mais maquiada que o normal, havia se arrumado e parecia conferir alguma coisa na bolsa pendurada no seu ombro esquerdo, ela disse:
- Foi a Bruna. A polícia chegou. Acho que pela rapidez, havia uma viatura passando aí por frente do prédio. Me explicaram que como fui eu quem liguei para eles, tenho que os acompanhar até a delegacia, para prestar a queixa contra a filha de D. Octávia.
- Mas o que aconteceu mãe? - de volta mãos até a altura dos seios a filha. Fazia uma expressão de perturbada.
- A Bruna estava bêbada. Desacatou as autoridades. Entraram na casa dela e um dos amigos, segundo a vizinhança, estava escondendo droga na casa. A polícia encontrou tudo. Disseram que se por gentileza, eu poderia os acompanhar na delegacia. Jogo rápido. Só como testemunha, para a formulação do BO.
   A dona de casa virou as costas e alertou:
- Cuide de tudo filha! Já volto da delegacia. Não mexa com o gás e, se revolver ir tomar banho, não demore tanto embaixo do chuveiro. Se pai já chega. Tchau!
   E a garota enxergou quando a mãe passou o esquadro da porta e foi para o corredor dos doze apartamentos do quarto andar, do Edifício Norte/Sul Libras, que moravam.
   Provavelmente, os policiais iriam dar-lhe carona. Tendo em vista que, no estacionamento do prédio deles, a família não tinham nenhum automóvel no estacionamento.
   De cabeça baixa a menina voltou a se acomodar na cadeira rente a escrivaninha do seu quarto.
   Raciocinou que enquanto a sua mãe não chegasse, ela não iria conseguir dormir.
   Na página certa de um dos livros de Machado de Assis, voltou a se concentrar no capitulo perdido, o qual se entretia antes daquela confusão começar.


Autor: Denis Santos (Guarapuava PR).



O fervo


Os policiais Wilkinson e Clooney patrulhavam Av. Cap. Siqueira, na cidade de Jaguaribe e estavam quase em frente a "Lanchonete Burg Life".
Como de outras noites: som alto dos veículos; um cantor sertanejo soltando melodias afinadas altas e em bom som, nas batidas fortes do violão; gritarias e algazarras de garotos e garotas que, além de palavrões, jogavam garrafas de cervejas pelos cantos da lanchonete, como se o gesto deles fossem à coisa mais bonita do mundo...
Quando a viatura ficou perpendicular ao fervo, e, o soldado Wilkinson imaginou que, provavelmente, os moradores adjacentes poderiam requisitar a atividade policial mais para o fim da madrugada, como no último final da semana, onde haviam encaminhados dois indivíduos por perturbação da tranqüilidade, ele perguntou:
- Hein, policia! - face forte de Wilkinson - O que te faz lembrar isso?
Perdido nas idéias, achando a questão do parceiro meio importuna, Clooney respondeu:
- De um hambúrguer!


Autor: Denis Santos (Guarapuava PR).



A mandioca


   Quatro e quarenta da madrugada.
   Os dois policiais, Tony e John, se assustaram quando o sargento Minghella puxou a porta para adentrar no plantão deles naquela noite (no Destacamento de Jandaia Paulista).
   Caia uma tempestade e a força da tormenta, se não fosse a destreza do superior hierárquico em fechar rápido a passagem, parte do computador, das cadeiras e muitos dos documentos que estavam por de cima das escrivaninhas, iriam ficar todos encharcados.
   Ao que deu uma ajeitada no fardamento, espalhou um pouco da água dos cabelos e bateu forte as botinas com o solo do piso, perguntou:
   - Qual foi de vocês dois que tirou aquele saco de mandioca de dentro da geladeira, hoje de tarde?! E não me venham com conversa fiada, tentando me enganar!
   Percebendo o sangue nos olhos do graduado; a fúria em suas vestes dele e, pelo jeito, a vontade de destruir o soldado que não lhe desse uma resposta racional,    Tony só se ateu:
   - Foi o coronel Pissardini, sargento! - face entristecida do subordinado.
   Depois de pensar um pouco e caminhar para o corredor que dava para a cozinha do órgão público, o sargento Minghella só acrescentou:
   - Vocês não sabem meninos, o favor que ele me fez. Obrigado!

Autor: Denis Santos (Guarapuava PR).






O campo


   Os policiais Holt e Robert haviam acabado de entregar o corpo de um indivíduo que havia levado dois tiros na cabeça, para o motorista do IML.
   O lugar do crime era na Localidade de São Miguel, interior da cidade de Castro Lourenço, onde, numa discussão por causa de uma mulher que trabalhava numa casa de shows, um, acabou tirando a vida do outro.
   Céu estrelado.
   Lua cheia.
   Vinte para as duas da madrugada.
   Fora o chiado do maic da viatura que transmitia as outras ocorrências por Guarapuava, foi o carro percorrer cerca de cinco quilômetros (em meio aos pés de pinus de doze metros de altura, cercas demarcatórias de fazendas com residências de madeira e alvenaria e o vento que parecia nervoso naquela hora da noite), o soldado Holt teve a iniciativa de perguntar:
   - Para esquecer tudo isso, o que você tem como hobby?
   - Eu vou para o campo! - respondeu Robert, focado na boleia do automóvel, preocupado que de repente, se um animal qualquer fosse atravessar a estrada, desse tempo dele frear o veículo.
   - Pois é. Ir para o campo o final de semana. Achar um açude para pescar, os parentes para jogar um truco, tomar uma...
   Espiando o jeito do policial de forma esquisita, Robert fez ele entender sobre o que ele estava se referindo.
   - Não é isso parceiro. É que eu jogo no time amador do Sport Clube Lourenço.


Autor: Denis Santos (Guarapuava - PR).




Bar

O delegado Taylor chegou em um dos cartórios da "25° Distrito Policial" de Tigópolis e encontrou o escrivão Joshua, digitando, provavelmente, parte de algum inquérito (estava focado na tela do monitor do computador).
- Boa noite?
- Boa noite!
Joshua saudou quem havia entrado no recinto, sem tirar seus olhos azuis do eletrônico. Só depois de salvar a data de uma audiência de um indivíduo no documento, foi que procurou saber quem o estava importunando:
- É o senhor, doutor!
Depois de um breve aperto de mãos, o chefe de polícia, percebendo que um dos seus subordinados parecia não estar bem, perguntou:
- Joshua, que cara feia é essa? 
- Não se preocupe doutor. Tomei uma batida forte ontem, e fiquei meio preocupado!
- Entendo. Te aconselho sempre procurar misturar essas bebidas, às vezes, com algum suco qualquer, para que ela fique um pouco mais fraca... - o interrompendo:
- Desculpe doutor. Me expressei mau. Na verdade, foi uma abordagem da polícia, ontem de madrugada, quando eu estava num bar.


Autor: Denis Santos (Guarapuava -PR).



Noite


   Sentado numa cadeira almofadada de rodinhas de cores pretas, o policial Dominic estava um tanto preocupado, quanto a ventania que entrava pela fresta da janela do modulo, se, daqui um pouco, a força da natureza não ia arrancar o petrecho do lugar.
   Todos encharcados, os militares West e Henson, adentraram no cômodo e, imediatamente, fecharam a porta. Até os relâmpagos que cortavam o céu, dava medo de ficar olhando para eles, naquela hora da madrugada.
- Tudo bem na ocorrência? - perguntou o fardado Dominic, dirigindo a pergunta para West.
   Um dos "Pelotões da Polícia Rodoviária" que trabalhavam, esse, ficava na PR 787, que, fora as outra cidades menores que eles davam atendimento, também pertencia ao município de Brápolis.
   Ao que os dois homens da lei penduraram, em cabides separados (atrás da porta do órgão público), suas capas de chuva, veio a resposta do servidor estadual que era baixinho e magro.
- Nem te digo. Para quem imaginava que era trote, uma ligação uma hora dessas, deu pepino para todos os lados.
   Se levantando, assustado, e levando as duas mãos para rente ao cinturão do fardamento, Dominic perguntou:
- Não me diga que tiveram que trocar tiros com algum bandido?
   Depois de darem gargalhadas do jeito engraçado e preocupado de Dominic, West fez ele entender: 

 - Não é isso companheiro! Se acalme. É que foi um acidente envolvendo um caminhão e uma moto. O caminhão estava carregado com pepino. Só o alimento que chegou a bloquear toda a via... 

Autor: Denis Santos (Guarapuava PR).



O enterro


- Moço!
Rapidamente o policial Brant se virou:
- Vocês não estão procurando a casa de D. Margarete, não é? - perguntou uma mulher que tinha alguns fios de cabelo brancos próximo a orelha; usava óculos de armação cor de ouro e; sobre parte das costas e ombros, uma manta de cor marrom clara (nesse início de madrugada, estava fazendo um frio que parecia gelar até a alma).
- Sim! - tom de voz do fardado de que realmente precisava de ajuda. Continuou - A Central de polícia passou uma a ocorrência aqui nesse endereço de que uma mulher estava apanhando do marido...
- Sim. É aí na frente. Foi eu quem ligou para vocês. Foi para D. Margarete...
- Ué. Mais como ela está apanhando do marido, sendo que o enterro dele, foi hoje a tarde?
- O senhor conhecia o Sebastião Sanfona?
- Sim! Foi amigo nosso por muito tempo. Mais o que isso tem em haver com a história? Se ele morreu, como D. Margarete pode estar apanhando do marido. Achei que estava no endereço errado. Chegamos passar até duas vezes aqui na frente. Mais fiquei meio com dúvida em parar...
- Sim. Eu vi que vocês passaram duas vezes com a viatura. Mais o endereço é aqui mesmo. Mas acho que o senhor não ficou sabendo. O Sebastião Sanfona morreu. Acontece que já tinha entrado na banda, o Mário da Gaita. 
 - Eu não acredito...  


Autor: Denis Santos (Guarapuava PR).




Verdade/mentira


- Sabe por que o médico pediatra e a dentista do posto de saúde, se desentenderam dessa vez?
Estavam quase chegando no local da ocorrência. O chamado era que um adolescente não parava de empinar a sua motocicleta em via pública. Além de embriagado, haviam comentado no cento e noventa, que não ia demorar muito, ele já ia atropelar uma criança, ou, um adulto, pela rua ou pela calçada.
- Não faço mínima idéia! - respondeu o soldado Goyer.
Pararam com a viatura no semáforo da Av. Doutor Pedrosa, quase em frente o Wall Mart, da cidade de Colorópolis.
- Faz tempo que estavam separados, morando debaixo do mesmo teto, por causa das crianças...
- Um casamento de fachada você quer dizer?
O policial Frank já havia engatado a primeira marcha do carro, porque o eletrônico de sinalização ia ficar verde para ele. 

 - Sim! Mas comentaram que a briga se deu, por causa, disseram, que dormiam ainda na mesma cama. De noite, quando o homem foi bancar o engraçadinho, ela disse que não podia, senão o namorado dela ia descobrir tudo? É mole um troço desses?


Autor: Denis Santos (Guarapuava PR).


Encontro


Já estava um tanto que escuro.
   Por coincidência, um homem de estatura mediana, cabelos grisalhos (deixava os braços magros para fora de uma camiseta regata de cor branca), enxergou que conversando próximo a um muro baixo, com um sujeito de terno e gravata, estava um antigo conhecido da reserva remunerada.
   Próximo um do outro, ele deu um sorriso, estendeu a mão e disse:
- Gerônimo! Como vai? Quanto tempo, não?
- E aí cara. Que legal te ver. Morando no bairro?
- Não! Só caminhando! E você, melhorou da bronquite? E da coluna? E sua diabete? Tudo... assim... legalzinho, agora? Hein?
- Nem te conto colega. Tudo mil de bom!
Olhando para o camarada que conversava com o antigo companheiro de farda:
- E esse aqui - estendeu a mão - Também foi dos nossos? 
 - Não, nada disso. Depois que me aposentei, ele virou meu amigo. Trabalha de vender plano funerário. 

Autor: Denis Santos (Guarapuava PR).



Informado

   O capitão Lagella já havia separado todas as equipes para, devido estar acontecendo a festa da padroeira do município de Comparópolis (trinta mil habitantes), tinha que em cada ponto estratégico do evento, espalhar os seus subordinados, caso qualquer morador do distrito precisasse de ajuda, houvesse a presença dos policiais mais perto deles.
   Era uma noite abafada. Por todos as quadras adjacentes do campo de futebol, carros das mais variadas marcas e modelos desfilavam em lados opostos, no asfalto. Com vestimentas mais apropriadas para o verão, crianças, adultos e muitos idosos, iam enchendo o estabelecimento para o show que dali umas duas horas, iria começar.
   Foi quando o capitão enxergou que dois policiais, um alto e outro de estatura mediana, vinham caminhando para o seu lado.
   Não teve outra idéia Lagella, a não ser raciocinar que já havia dado BO no posto deles, e os militares vinham lhe informar do episódio.
   A um metro, o fardado de estatura mediana se adiantou:
- Boa noite capitão?
   A multidão entrando e saindo do campo de futebol, outros, soltavam foguetes para a atmosfera, outros, com o som altos dos seus automóveis, estacionados do outro lado da rua, já, estava deixando quem estava trabalhando imaginando que a noite prometia.
- Da onde vocês vieram?
   Achando a pergunta um tanto que esquisita, estranha, por ser mandado a pedido do tenente Frost, só avisar o capitão que a janta deles iria ser servida daqui uns trinta minutos, o soldado mais alto dos dois, fazendo face de coitado, se atravessou no dialogo: - Eu moro em Maringá, capitão, e meu parceiro, acho, nasceu em Guarapuava!    


Autor: Denis Santos (Guarapuava -PR).



O lobisomem

Eram meia noite e meia.
   Pelo retrovisor da viatura, o soldado Franz enxergou que um homem de cabelo grisalhos (depois do carro passar por ele), pareceu acenar para que eles parassem com o automóvel.
- Hein! Encoste. Acho que tem um cidadão ali, querendo conversar com nós.
O militar Pollack, concordou com o pedido do companheiro e, num gesto rápido, num canto apropriado próximo ao meio fio da calçada, estacionou o veiculo do Estado.
   Bufando, o estranho chegou pela porta do passageiro.
   Disse:
- Boa noite policiais?
- Boa noite! Do que o senhor precisa de nós?
- Bom. Eu moro lá na Localidade de Palmeira Velha. É que lá na chácara onde moro, faz tempo, tava tendo furtos de galinhas, milhos da nossa plantação...
   O policial, percebendo um pouco de cansaço pelas bufadas que ele soltava, e, testemunhando que "realmente" ele talvez fosse do interior, orientou:
- Se acalme senhor. E explique com mais calma...
- Pois bem - além dos dentes todos amarelos, dois, do lado de cima da frente, estavam faltando - Aí. Um compadre meu, apareceu em casa na semana passada, contando um causo de um lobisomem na região.
   Tanto o giro flex, quanto o motor da viatura, permaneceram ligados. Talvez, o policial Pollack, achasse que a orientação não demorasse tanto, naquele início de noite, com o agricultor.
   O homem continuou:
- Aí, eu, meu irmão e esse mesmo compadre meu, resolvemos ficar de campana essa madrugada, para ver se capturava esse lobisomem.
   O interrompendo:
- Já sei - o soldado Pollack fez uma face cômica - Aí, vocês conseguiram prender o monstro!
- Sim. Pós olhe policial. Ontem à noite tava tudo muito escuro. Não foi fácil prender a besta. Tivemos que grudar nele de madrugada. Surrar, surrar, surrar... Até o bicho ficar tonto, e não conseguir machucar a gente e também não sair correndo. Até minha mulher ajudo, com um pedaço de pau. Depois, de madrugada mesmo, conseguimos amarrar o bicho no nosso paiouzinho lá em casa. Agora que vem o problema... - o cortando.

- O quê? Vai dizer que o lobisomem escapou?

- Não é isso policial. Mas acho que ele se transformou em homem. Agora não sei se o delegado para querer prender ele desse jeito.


O padre


   A viatura do sargento Morgan, havia chegado para dar apoio numa situação de agressão, praticada por um adolescente, numa região agrária do município de Gaivorópolis.
   Se tratava de um menino que, do nada, havia quebrado vários objetos pessoais de sua mãe, quanto, louças e eletrodomésticos da residência.
   Foi o graduado: alto e magro, abrir a porta do carro, saltar dela, já, na porta mesmo da moradia, encontrou o soldado Redford que se posicionava para dar satisfação do que, verdadeiramente, havia ocorrido na moradia.
   Infelizmente, veio a pergunta primeiro do sargento:
- Tudo mais calmo por aí policial?
   Morgan, Comandante do Destacamento policial de Gaivorópolis, segurava uma espingarda calibre doze e, atrás dele, mais dois fardados que, focados, espiavam a cena do incidente de forma investigativa.
- Não foi fácil sargento. Mais junto com a mãe do menino, conseguimos contornar a situação. Tem o padre da capela aqui do lado, que já conhecia o filho da dona da casa, e veio ajudar também. O padre fez tudo que pode, e o demônio ficou amarrado.
- Mas essa não é uma pratica legal soldado. Procure sempre usar a sua algema, onde tenham que fazer força. Entendeu?
   Nisso, todos viram quando o adolescente: camiseta rasgada, descalço, todo suado e pequeno corte rente a testa, juntamente com sua mãe, e, provavelmente, o padre que apareceu mostrar solidariedade para com a família, apareceram para debaixo do esquadro da porta.
   Um pouco mais ao canto deles, o militar Rydell (companheiro, naquela madrugada, do policial Redford).
   Achando aquilo esquisito, o sargento Morgan o interrogou:
- Você não disse que ele estava amarrado?
   O outro explicou, fazendo face de coitado:
- Sargento! Eu estava me referindo ao demônio.  


Autor: Denis Santos (Guarapuava - PR)



Dubidade

A ambulância do Posto de Saúde, já havia levado para a instituição médica, os dois indivíduos que haviam se envolvidos numa colisão, numa estrada rural do município de Cadeirópolis.

   Na ocasião, um motoqueiro, veio a perder o controle da direção e se chocado de frente com uma Toyota Bandeirantes.

   Os policiais, Antony e Lawrence, diante de um dos curiosos que cercavam o local da ocorrência, só tinham ouvido falar que os dois seres humanos já estavam sendo encaminhado para a Guarapuava, porque a situação de saúde deles, era grave.

  Depois de tirarem fotos dos da cena da colisão; mediarem o perímetro, com a ajuda de uma trena, da distância do choque, até um ponto útil da estrada, para o breve croqui e; verificar a situação dos veículos perante seus débitos com o DETRAN: seguro, licenciamento, e IPVA, os dois homens da lei, aguardavam o guincho do Batalhão chegar, para darem o desfecho final do acidente.

  Tinham que encaminhar ambos os automóveis dos envolvidos na colisão, para o pátio do Destacamento policial, porque testemunharam, fazia muito tempo, os proprietários deles, nunca acertaram suas dividas pertinente a circulação em via pública dos veículos, para com o Estado.

    A lua estava cheia.

  Foi através da iluminação de outros veículos das fazendas  adjacentes que o soldado Antony e Lawrence, puderam trabalhar (fora com a ajuda de suas lanternas pessoais).

  Um vento tímido soprava alto as folhas das vegetações, para as esquerdas.

  No silencio da madrugada, o som desconexo de vários sapos, num tanque, não muito longe da onde aquela pequena multidão se juntou, dava para ouvir a orquestras deles, afinada e alta.

  Foi o militar Antony que teve a iniciativa de perguntar:

- Soube que o dono do mercado Laranjeiras, foi para o buraco?

  Fumando um cigarro, meio sentindo frio, uns poucos metros da viatura, espiando uma casinha lá no alto da montanha, onde, provavelmente, os moradores do chalé, descansavam num sono profundo e confortável, Lawrence respondeu:

- Não sabia! Mataram ele a tiros, acidente ou alguma doença que apareceu?

Espiando o parceiro de um jeito estranho, Antony já fez uma segunda pergunta:

- Do que você está falando? - face desconfiada do militar.

- Ué. Você não está me dizendo que o homem foi para o buraco!

   Percebendo a confusão, Antony explicou:

- Eu me referi a contas. Desculpe.´


Autor: Denis Santos (Guarapuava - PR)



A ordem

O sargento Brad estava sozinho no Destacamento policial da cidade de Revolrópolis.
   Esperava um aluno-soldado, que ia se apresentar para ele, para que o outro dia, cedo, começassem a arrecadar alimentos, em prol da Sociedade Beneficente Luked, tendo em vista, alguns moradores da Vila Nova Esperança, serem atacados pela enchente, no último domingo chuvoso no município.
   Ao que o graduado tirou as pupilas da tela do monitor do computador, onde conferia a escala diária da semana, deu de cara com um sujeito vestido de camiseta branca, calça jeans azul e tênis de cor preto. Ele ainda estava com barba aparada e cabelo, raspado ao lado com a maquina numero zero, ao lado.
   Rápido, o individuo já disse:
- Boa noite sargento. Eu queria saber se o senhor pode me dar uma Ordem?
- Sim! Eu estava te esperado - o Comandante do Destacamento se levantou. Levou a mão num gesto de cumprimento ao homem - Fez boa viagem?
   O outro ficou em silencio.
  O sargento Brad achou estranho, mas esses caboclos que entravam novo na polícia, muita das vezes, não eram muito de falar mesmo. Principalmente, soltar alguma palavra, errada, e pudesse ofender o superior hierárquico.
   Depois um breve respirar, explicou:
- Mas agora é seis da madrugada. Nossa missão começa as sete. Dá tempo de você ir na cozinha, e preparar um café para nós.
   Mais estranheza do desconhecido. Ele chegou até a mudar os semblantes, depois das palavras da missão paga pelo graduado.
   Nisso, apareceu outro sujeito no Destacamento policial: alto, magro e que vestia, quase, os mesmo trajes que o primeiro.
   O rapaz já foi direito para o lado do Comandante. Fez alto a um metro dele, e, a continência de praxe.
- Bom dia sargento! Eu sou o aluno soldado que o capitão Laerte lá de Guarapuava, pediu que quando eu chegasse aqui, me apresentasse para o senhor - o cortando, fazendo face desconfiada:
- Mas você não é ele! - apontou para o outro.
- Acho que não sargento! - soltou essas palavras o que havia chegado primeiro. Ainda - Eu sou morador da cidade fazem vinte anos. Acho que o senhor me confundiu...
   Levando a mão na cintura, o sargento Brad mandou ele responder, meio com a expressão de raiva:
- E como você me chega aqui rapaz! E me pede para eu te dar uma "Ordem"?!
- Sim, sargento! É que eu não tenho Habilitação, minha moto não tem Placa, e está com os Débitos todos atrasados. Eu vim pedir uma Ordem para o senhor, para saber se posso "só" ir com motocicleta trabalhar, todos os dias cedo. Essa ordem que eu queria ter do senhor!?
   Querendo jogar raios de fogo com as vestes para cima do caboclo, levando uma das mãos à cabeça, o sargento Brad bufou:
- Você só pode tá de brincadeira! Só o sargento "capeta" para te dar uma "ordem" dessas!
   Cabisbaixo, assustado e com a face entristecida, o outro perguntou:

- E ele tá de serviço hoje, sargento?


Autor: Denis Santos (Guarapuava - PR) 


O pudim

Foi o tenente Bruce chegar na cozinha do Destacamento policial, já abriu a geladeira e deixou no interior dela, um pudim de sabor chocolate.

   Rápido, voltou para frente do órgão público, porque percebeu que tinha ouvido o capitão Casey, gritar seu nome.

   Não deu dez minutos, apareceu na cozinha de volta, depois de ouvir as orientações do capitão, tendo em vista no outro dia cedo, as várias viaturas espalhadas pela cidade, onde, o governador de Estado, estaria se reunindo com o prefeito, vereadores e outros deputados estaduais do município, dando sequência a sua agenda política do mês, na preparação das eleições que se aproximavam.

   No cômodo, o tenente Bruce só encontrou o soldado Tom, rente à mesa, que, olhando um prato vazio, colher em mãos e lábios se locomovendo meio que lentamente, parecia distraído.

   Rápido, o tenente Bruce, de volta, abriu a geladeira.

 Não enxergou o seu pudim de sabor chocolate, preparado por sua esposa, no interior de uma das repartições.

   Foi curto e grosso, fechou os semblantes e, jogando raios de fogo para cima do soldado Tom, perguntou:

- Não é que eu deixei um pudim na geladeira e o comeram, sem a aminha autorização?

- Não se preocupe tenente. Aqui no Destacamento não tem policial dedo duro, mas quando eu achar esse intrometido por aí, eu já entrego ele para o senhor!

  

Autor: Denis Santos (Guarapuava - PR)



O café

No interior da viatura "modulo móvel" mais para o meio do acento dela, almofadada, o coronel Wilson aguardava o telefonema do chefe da casa militar de Curitiba, vinda do secretario de segurança, se, "sim" ou "não", iriam tirar todos os Sem Terras da Localidade de Pedreira Santo Antonio, interior da cidade de Madiopólis, naquela hora da madrugada.

   Da onde o oficial superior estava, mesmo com o vento varrendo as folhas das vegetações de um lado para outro com violência; e a tempestade mostrando que não ia embora tão cedo, ele enxergava as crostas de barro que ia se formando, aonde os policias circulavam de um minuto a outro. Ainda, os trezentos e cinqüenta ônibus que se acamparam pela região, vindo de outros cidade paranaenses, afim de mostrar apoio para com os outros assentados. E, por último, quase todos os repórteres dos canais de televisão locais, se locomovendo, inconscientemente, procurando sempre um melhor momento, ou, algum indivíduo que lhe pudessem ceder uma informação bombástica.

   Pelo alto do horizonte, o coronel Wilson enxergava que trovões relampeavam de forma repetitiva e alucinada na atmosfera.

   Por que Wilson naquele dia e naquela hora, teve o azar de ser o escolhido para dar o desfecho pacifico e inteligente, para os ocupadores, onde, tudo pudesse acabar bem? Se roia e tentava achar uma resposta racional e curta na idéia, onde não se distanciasse da sua responsabilidade.

   No fundo, já pensando na esposa, nos dois filhos e a hora que poderia voltar para o seu lar, e esquecer essas incoerências da atividade de Comandante, levou a mão para o interior de um dos bolsos da sua jaqueta policial, e apanhou dela, um cigarro. O ascendeu.

  Chegou apenas a dar umas duas baforadas nele, apareceu em sua frente, o soldado Cloney.

   O militar segura uma garrafa de café na mão direita e na outra, um copo de cor branco, descartável.

  Estendeu o pretecho para o coronel e, abrindo a garrafa, despejou parte do liquido no recipiente.

   Uma fumaça roliça e branca se diluiu ao ambiente.

 Depois de pensar um pouco, um dos seus subordinados perguntou:

- Que coisa ais desagradável né! Coronel?

- Pois é Cloney. Para quem imaginava que isso só ia durar um dia, olhe que desgraça tá acontecendo!

   Com seus olhinhos pequenos, seu corpo magrinho e, sempre, com seu jeito de querer dar solução para tudo, o soldado Cloney soltou:

- Mas não se preocupe coronel. Pode ficar tranquilinho. Tudo vai acabar bem. Essa chuva já passa!

 

Autor: Denis Santos (Guarapuava - PR) 



O legado

Quatro da madrugada.

   Um individuo de nome Marco e de apelido Merla, ao que saiu de uma festa de aniversario, embriagado, resolveu da um cavalinho de pau em via pública. Não havia percebido que uma quadra dali (pela falta de lucidez), havia uma viatura policial.

  Depois de desacatar as autoridades fardadas, dizendo que estava cheio de amigos influentes pela cidade, gritar que aquilo não ia ficar assim; depois de ameaçar, soltando que iria provar, diante do bafômetro, que não estava embriagado; depois do teatro de intimidar várias vezes os policiais, que era "intocável" porque possuia curso superior... Na delegacia, antes de ser encaminhado para o xilindró, onde, nenhum de seus amigos apareceram na DP, pagar fiança, ou, mesmo mostrar solidariedade para com ele, onde, mesmo relatando para o escrivão de polícia de que tinha curso superior (em se tratando do procedimento judiciario), isso, diante do crime, não lhe serviu para muita coisa e, depois de realizado o bafômetro, por livre e espontâneo vontade, o etilometro acusar uma quantia maior do que ele imaginava de álcool no sangue, o policial Fernando, perguntou:

- Valeu à pena tudo isso?

Calmo, triste, frustrado com seu diploma ex-acadêmico, e, diante de seus amigos e parentes, que, sequer atenderam uma chamada telefônica sua, ou, da delegacia, naquela hora da madrugada, o garoto respondeu:

- Não é isso policial. É que eu tenho que deixar um legado para os manos!


Autor: Denis Santos (Guarapuava - PR)



A tomada

Antes do cabo Thompson adentrar para a sua sala, foi advertido pelo soldado Kerry:

- Cabo! O computador, tome cuidado ao ligá-lo, a tomada esta com mal contato, e tá dado um choquinho meio forte.

   Foi dar um passo no cômodo, o graduado já sentiu uma fisgada no bolso de sua calça caqui, de que pelo celular, haviam lhe enviado uma mensagem.

   Depois de puxar o eletrônico para perto da face, leu no display dele: "Ao sair, venha para casa, tenho que levar o Kevin cedo no dentista".

   A mensagem, pelo What Sapp, Thompson, logo testemunhou que se tratava de sua esposa, que fez questão de lembrá-lo, do compromisso no outro dia cedo.

   Depois de se ajeitar na poltrona de encosto espumado e de rodinhas de cores preto, ele já levou a mão na tomada do computador, para ligá-lo.

   Foi rápido o choque, a dor e o grito: Uí!

   Irritado se levantou.

   Voltou para frente.

   Percebeu que o seu subordinado estava entretido escrevendo alguma coisa num caderno de capa dura de cor preto.

   Disse:

- Kerry!

- Sim, cabo.

- Peça para os outros para tomarem cuidado com a tomada do computador, antes de levarem um choque!


Autor: Denis Santos (Guarapuava - PR) 



Inesperado

Quando um indivíduo de nome Gilroy, abriu a porta de sua residência, deu de cara com o tenente Edwards em sua frente, que o espiava jogando fogo pela irís.

   Em primeiro momento, um dos motoristas do "Supermercado Mais Barato" de Guarapuava, não gostou nada do oficial de polícia, ter invadido o seu terreno, vir para a sua varanda, e importuná-lo naquela hora da madrugada.

   Depois, ele focou seus olhinhos pretos para a rua e enxergou: duas viaturas da polícia, com o giro flex ligado; um senhor idoso, só de pijama, no terraço da casa da frente, segurando um cabo de vassoura em punhos, parecia "muito" irritado com aquele momento; ao lado da habitação do senhor de idade, uma senhora, segurando um bebe ao colo, enfurecida, tentava fazer seu filho voltar a dormir, gingando o corpo de forma impaciente; mais ao extremo, aonde a vista de Gilroy pode alcançar, ele reparou que as luzes das outras moradias, assim, como de outros apartamentos dos edifícios um pouco mais afastado do lugar, "todos', talvez, já estivessem acordados, e ele já estava entendo mais o menos o porquê daquilo tudo; numa cerca de meio metro de altura, do lado esquerdo de sua residência, um casal, jovem, escorados na madeira para o lado de lá, também espiavam o jeito do motorista, querendo soltar raios de canivetes para cima dele, que, dali, ele não fosse para o hospital, e sim, para o cemitério.

   Com o rosto de coitado, só restou para o caboclo perguntar para o tenente Edwards:

- O som tá alto, é policial?


Autor: Denis Santos (Guarapuava - PR)


Aposentadoria

O soldado Robbins esperava o policial Bruce dar a última orientação para uma mulher alta (cabelos longos e encaracolados, perfumada e maquiada), devido a terem arrombado o seu estabelecimento comercial e, subtraído dele, varias peças de roupas, entre: lingerie, caças jeans femininas, camisetas...

   Próximo a porta do passageiro, Robbins percebia que seu parceiro tentava colocar na cabeça da vitima que, nesses últimos anos, um cachorro, um alarme, ou, uma câmera filmadora, se pelo menos não ajudava, sempre colocava mais medo nos ladrões.

   Faltando seis meses para se aposentar, Robbins espiava o gesto do seu companheiro e raciocinava quando não mais precisaria estar nas madrugadas, atendendo as solicitações dos moradores da cidade; quando não mais precisaria arriscar sua vida, enfrentando bandidos que andavam triplamente mais fortemente armados que a polícia, tanto de dia, quanto de noite; quando não mais precisaria ir nas audiências em seus dias de folga, obedecendo o cronograma do fórum da jurisdição que trabalhava...

   Saiu de suas idéias, quando enxergou que Bruce se despediu da mulher, adentrou na viatura e, em silencio, só se ateu a colocar o cinto de segurança.

   Para quebrar o gelo, Robbins disse:

- Estava aqui pensando, se no fundo, bem no fundo, isso não vai me fazer falta.

- Pois é parceiro. Mas eu não perguntei, mas ela disse que é casada.


Autor: Denis Santos (Guarapuava - PR) 




Pensamento

- Faça o favor soldado. Faça uma varredura no Destacamento, encontre todos os cartuchos velhos e me traga aqui, que vou levá-los amanhã cedo, todos, para o Guarapuava.
   O soldado Affleck só ouviu o sargento Lehane soltar essas palavras e percebeu que o graduado nem pulou da viatura.
   Sem dizer palavra, o militar correu para o interior do órgão público, cumprir a missão que um de seus superiores hierárquicos, ordenara.
   Ocorreu naquela noite que, em uma ocorrência onde a equipe do sargento Lehane, realizaram um acompanhamento tático, onde, dois bandidos haviam roubado um posto de combustível da Av. Cristo Rei, numa altura da perseguição, numa lombada mais alta que o padrão, o escapamento da viatura viera a se chocar com o solo, nisso, deixando um ruído esquisito e grave no carro.
   Depois de prenderem os autores do roubo, conduzi-los para a DP, tinham, antes de voltarem para as suas atividades corriqueiras, arrumar aquela parte mecânica do automóvel, onde, só na oficina "New Tecnic" em Guarapuava, era que o Estado realizava a manutenção básica da frota.
   Aproveitando a viajem para a cidade, o sargento já quis resolver outro problema, em se tratando do andamento administrativos do Destacamento policial.
   Foi aí que o comandante se assustou, quando o fardado Affleck, apareceu carregando uma caixa "pesada" de papelão (andava meio que com dificuldade o homem que tinha o cabelo cortado com a máquina número zero, próximo a orelha).
  Fazendo face desconfiada, o graduado perguntou:
- Onde você vai com isso soldado?
   Sorrindo, Affleck respondeu:
- Todos os cartuchos velhos que encontrei, sargento, estão aqui!
   Ao mesmo tempo com raiva, ao mesmo tempo com graça, depois de levar a mão na testa, como se puxasse para ele mesmo que "ele" também tinha culpa no cartório, Lehane explicou:

- Cristão, eram os cartuchos das impressoras que eu me referi!

Autor: Denis Santos (Guarapuava - PR)





A boina mágica 

                    O soldado Stern havia acabado de passar um óleo desimgripante em todas as portas da viatura.                     Em seguida, adentrou para o Destacamento policial e consultou o militar Fishburne:

- Não sei aonde foi que larguei a tampa do vidro desse óleo. Por acaso você não viu por aí?

Sem muito pensar, o Fishburne só explicou:

- Você deve ter deixado por dentro do carro, por distração. Vamos procurar lá!

   Passando vários minutos, depois de chegarem a ficarem exaustos de tanto mexer pelos cantos do automóvel, Fishburne orientou:

- "Meu Deus". Será que por engano você não jogou fora essa tampa?

- Que saco! Eu tenho certeza que havia a deixado por aí.

   Nisso, pelo tormento, o homem levou uma das mãos à cabeça. Tirou a boina, onde, achou, era por causa dela, os seus neurônios não estavam o deixando pensar corretamente.

   De repente, perceberam que, com uma das peças do fardamento, tirado de cima da cabeça do homem, a tampa do óleo também veio junto.

   Stern  soltou:

- Eu não acredito! Fui agraciado com uma boina mágica!

 


Autor: Denis Santos (Guarapuava - PR) 


A lanchonete

Eram duas da madrugada.
   Os policiais, soldado Van e soldado Edie, conversavam no interior do automóvel:
- Você sabe que saiu uma lanchonete nova, lá naquela chácara da fazenda dos Bombachas?
   Depois de jogar para fora do carro, boa parte da fumaça que fabricou de um cigarro de marca nacional, o fardado Edie disse:
- Eu não tava sabendo! Faz tempo?
   Na Av. Manuel Ribas, quando o sinal ficou vermelho para a viatura, num posto de combustível mais adiante da mirra dos policiais, muitos transeuntes, pareciam entretidos ao esperarem os frentistas abastecerem o seus veículos.
   Na pista do estabelecimento comercial, mais para o alto de uma porta de vidro temperado, num painel eletrônico de LCD (umas cinqüentas polegadas), o eletrônico exibia propagandas de telefones celulares, shampoos, imóveis pelo município...
- Fazem uns, dois dias. Diz que tem piscina, sauna, cômodos para festinhas particulares...
Sem pensar muito:
- Então isso que ele montou é menos para diversão, e mais para sem vergonhiçe?
- Claro que não! Deixe de ser tonto. É um ambiente familiar. Tanto é que o cara só deixou a mulher dele, para servir os clientes...

Autor: Denis Santos (Guarapuava - PR)


A audiência


Um advogado nomeado, conversava com um dos seus representado, em uma das salas do fórum, alguns minutos antes da instrução criminal.
   Na ocasião, fazia uma tarde abafada.
   Era uma sexta-feira, onde, na segunda e terça-feira próxima, seria feriado na cidade de Perópolis.
- Pois bem companheiro. Você vai ser ouvido hoje, por causa do assalto que você se envolveu - o sujeito o escutava em silencio e de cabeça baixa - Dái, tem mais um BO de um homicídio que você participou há uns anos atrás - face do defensor focado nas suas palavras - Que, talvez, o juiz recorde na hora da audiência - o advogado era alto e magro. Barba por fazer e usava um terno de cor preto. Continuou - E mais aquelas prisões que houve, que eu vi na sua papelada, de pensão alimentícia, e violência domestica, quando você era casado...
   A cada delito do individuo, que não aparentava ter mais de trinta anos, para que ele não tivesse uma surpresa na hora em que fosse se defender, o homem do lado de cá da escrivaninha, percebia que ele ficava cada vez mais acanhado.
   No final, só completou:
- Tranqüilo?
   O outro ergueu a cabeça, de um jeito investigativo e respondeu:
- Só se hoje for primeiro de Abril, doutor?

Autor: Denis Santos (Guarapuava - PR) 

Invocação do mal

Faltavam alguns metros para passarem em frente ao "Cemitério Nossa Senhora das Graças".
A equipe policial da cidade de Antilópolis, vinham de Guarapuava, depois de levarem preso, um indivíduo que fora flagrado (após uma denúncia) dirigindo um automóvel, com dois trinta e oito em seu interior. Municiados e prontos para um disparo qualquer.
- Não tem medo de passar por aqui essa hora? - perguntou o policial Cooper.
Atendo na boleia da viatura, o soldado Laupper respondeu:
- Por quê?
Muitos dos moradores comentavam que, depois da meia noite, um homem usando um chapéu de feltro de cor preto à cabeça (abas compridas); capa de cor preta e, botinas dessas parecidas com de metaleiros (quase chegando aos joelhos), encostado no muro do órgão público, amanhecia fumando um palheiro: enrolado com casca de milho seco.
Se tratava do Zeca Bodega que, quando era vivo, em vielas ermas do bairro, corria atrás das moças, depois que um baile qualquer terminava.
- Por causa da lenda do maníaco doido!
Achando esquisito a observação do seu companheiro de serviço naquela madrugada, Laupper só se ateu:
- Receio eu tenho, mas qual outro caminho que você sugeria?!
No fundo, outra estrada não existia. A não ser que resolvessem cortar caminho por meio da mata, onde: sem sinalização; esburacada e; muita delas, de tão estreitas, dois carros em direções opostas, se encontrando, teriam que reduzir o maximo a velocidade para que não se chocassem um, com o outro. Só assim.
O céu cravado de estrelas. Lua cheia. À atmosfera estava um tanto que abafada e a ventania estava por demais de violenta.
Silêncio.
Depois de filosofar um pouco, Laupper escolheu outro assunto:
- Não sei porque a Krolaine, ficou me olhando sem graça hoje, depois que eu perguntei se ela havia assistido ao filme Invocação do mal?
- A Krolaine da Lotérica Galego? Eu a conheço. Estudemos juntos no primeiro gral. Acho que depois ela casou, teve filhos, parou de estudar, se separou e foi trabalhar naquele lugar. Mas por que você perguntou isso para a menina? - ao invés de responder ao colega de farda, fez outra pergunta Laupper.
Como todas as outras vezes, o cemitério: com as pontas de catacumbas, umas baixas outras altas; o portão enferrujado, de formato ogival no alto e; o murro baixo, pintado de branco, com seus cinqüenta metros de frente.
- Ué. Por que ela é muito parecida com a atriz do filme, Vera Farmiga!
Soltando uma bufada de incompreensão:
- E nunca te contaram que ela também é missionaria?
Levando as duas mãos a cabeça:
- Minha nossa... Que gafe.

Autor: Denis Santos (Guarapuava - PR)